Vini Jr.: Muito Além do Futebol – Força Psicológica, Luta e Humanidade

Vinicius Jr. é, sem dúvida, o principal atleta do futebol brasileiro na atualidade. Força psicológica, força física, qualidade técnica, talento e disciplina se combinam em um jogador que encanta dentro de campo. Mas, fora das quatro linhas, Vini carrega um peso que vai muito além da camisa que veste.

Homem negro, retinto, ele enfrenta diariamente uma das chagas mais persistentes da nossa sociedade: o racismo. Relatos da mídia indicam que o jogador já denunciou episódios de racismo em campo mais de 20 vezes. Sim, Vini Jr. é um ser humano que, além de brilhar com a bola nos pés, tem a coragem de expor e enfrentar essa realidade no Brasil e no mundo – inclusive na Europa, onde o preconceito ainda se mostra explícito e recorrente.

O caso mais recente, durante a partida entre Benfica e Real Madrid pela Champions League, escancarou mais uma vez essa luta quase solitária. Após marcar um golaço e ser alvo de um insulto racial, Vini viu o técnico adversário, José Mourinho, desviar o foco do crime para criticar sua comemoração. Mas, dessa vez, vozes poderosas se levantaram.

Seedorf e a desconstrução do discurso de Mourinho

O holandês Clarence Seedorf, ex-jogador e hoje comentarista, foi cirúrgico ao analisar a declaração de Mourinho. Para Seedorf, o treinador português cometeu um erro grave ao sugerir, ainda que indiretamente, que a comemoração de Vini poderia justificar ou provocar reações racistas.

“Eu acho que o Mourinho errou feio hoje ao justificar o racismo. Ele disse que onde o Vini vai, essas coisas acontecem. Então ele está dizendo que, quando Vinícius provoca, é ok ser racista? Eu acho isso muito errado”, afirmou Seedorf à Prime Video .

O holandês foi além, tocando em um ponto nevrálgico: o histórico de perseguição que Vini sofre na Espanha. “O fato de Vini Jr passar por dificuldades na Espanha há muitos anos é algo que não podemos esconder. Temos que deixar claro que não há justificativa para o racismo, não há espaço para isso. Nós nunca devemos justificar o racismo, e Vinícius já não aguenta mais esse comportamento das pessoas” .

A fala de Seedorf é fundamental porque expõe a lógica perversa por trás de discursos que, mesmo sem intenção explícita, acabam transferindo a responsabilidade do agressor para a vítima. Não, Vini não provoca racismo. Vini joga futebol. Vini dança. Vini existe. O problema não é a existência dele, mas o racismo de quem o agride.

Carragher, o caso Suárez e o aprendizado necessário

Jamie Carragher (homem branco, um dos poucos a defender Vini abertamente), ex-zagueiro do Liverpool e hoje comentarista da CBS Sports, também não poupou críticas a Mourinho, mas foi além. Ele usou sua própria experiência para oferecer uma reflexão poderosa sobre como os clubes frequentemente erram ao defender seus jogadores incondicionalmente .

Carragher lembrou do caso envolvendo Luis Suárez e Patrice Evra, em 2011, quando o atacante uruguaio foi condenado por insultos racistas contra o zagueiro francês. Na época, o Liverpool apoiou Suárez publicamente, e jogadores chegaram a usar camisetas em defesa do companheiro. Anos depois, o clube pediu desculpas formais a Evra, reconhecendo o erro.

Às vezes, quando você está dentro de um clube de futebol, seu julgamento fica nublado. Você apoia seu jogador não importa a situação, mesmo com algo tão sério quanto o racismo. Eu estive lá como jogador. Tivemos uma situação assim no Liverpool, e acho que todo o futebol estava olhando para nós pensando que tínhamos errado feio. Demorou muito tempo para aceitarmos que estávamos totalmente errados” .

Carragher dirigiu um conselho direto ao Benfica: “A maioria das pessoas no futebol agora está olhando para a situação e pensando que o Benfica interpretou isso horrivelmente errado. Se houver uma investigação, e esperamos que haja, podemos chegar ao fundo disso. Espero que, com o tempo, o Benfica e as pessoas ao redor do clube possam se desculpar ” .

A fala de Carragher é um lembrete de que o racismo não é apenas um problema individual, mas institucional. Clubes que protegem jogadores acusados de racismo, que emitem notas duvidosas colocando em dúvida a palavra da vítima, estão do lado errado da história. E, como o Liverpool aprendeu, o reconhecimento público do erro é o mínimo que se pode fazer.

A solidão que Thierry Henry conhece bem

O ex-atacante francês Thierry Henry, hoje comentarista, usou seu espaço para ir muito além de uma defesa genérica. Ele se identificou com a dor de Vini de uma forma que poucos conseguem. “Eu me identifico com o que o Vini Jr. está passando e sou solidário a ele. Aconteceu comigo tantas vezes”, desabafou Henry. Ele falou sobre a solidão de quem sofre esse tipo de violência: “Às vezes você se sente sozinho porque é a sua palavra contra a dele” .

Henry também ironizou a atitude do agressor, que cobriu a boca com a camisa para proferir o insulto, um ato que, para ele, já denuncia a culpa. “Vamos ver quão grande homem Prestianni é, diga-nos o que você disse […] Estava tapando o nariz porque está com um resfriado?“, questionou, expondo a covardia do ato . A fala de Henry ecoa a de Vini, que já disse que “cada vez está mais triste, com menos vontade de jogar”, mas que segue lutando por todos aqueles que sofrem racismo no dia a dia.

A lição de liderança de Vincent Kompany

Outro que deu uma verdadeira aula foi o técnico do Bayern de Munique, Vincent Kompany. Em uma coletiva contundente, ele não só apoiou Vini como destrinchou o erro de Mourinho em tentar justificar o injustificável. Kompany classificou a atitude do treinador português como um “erro enorme” de liderança.

O ponto mais brilhante de sua fala foi quando desmontou o argumento de que um clube não pode ser racista porque teve Eusébio, um ídolo negro, em sua história. “Você sabe o que os jogadores negros tiveram que passar na década de 1960?”, questionou Kompany. “A única opção que eles tinham, provavelmente, era ficar quietos, não dizer nada, ser 10 vezes melhores. Essa era a vida de Eusébio. E hoje, usar o nome dele para desmerecer o Vini Jr., que finalmente está em uma posição onde pode falar sobre isso, é um erro gigante”.

Kompany, como um dos poucos técnicos negros na elite do futebol europeu, lembrou a todos que o problema não é a dança ou a comemoração, mas sim o racismo enraizado. Ele reforçou que a reação emocional de Vini Jr. ao denunciar o caso “não pode ser falsa” e que não há benefício algum para o jogador em passar por todo esse desgaste.

O impacto real na carne e na alma

E aqui chegamos ao ponto central: o impacto disso na saúde mental e na vida de um homem negro. A fala de Kompany sobre os jogadores dos anos 60, que precisavam ser “10 vezes melhores” e engolir o preconceito em silêncio, nos leva a refletir sobre a cobrança desmedida que recai sobre Vini hoje. A fala de Seedorf nos lembra que não há justificativa. A fala de Carragher nos alerta sobre a cumplicidade institucional.

A verdade é que Vini Jr. precisa ser forte o tempo todo? Precisa estar eternamente em estado de combate? Ele é humano. E como todo ser humano, tem seus momentos de fragilidade, de dúvida, de cansaço emocional. Mesmo sendo um astro do esporte e do marketing, milionário e namorando uma influenciadora famosa e polêmica, Vinicius é de carne e osso. Sangue. Sentimento. Como ele mesmo já disse em uma coletiva emocionante: “Se fosse só eu, já teria desistido. Vou triste para casa”.

A cobrança sobre ele é maior justamente por ser um homem negro. E os números mostram o que isso representa: negros são os mais encarcerados, os que mais cometem suicídio, os mais vulneráveis, os que ganham menos. A falha não é permitida. A fraqueza, também não.

O debate em torno da luta de Vini Jr. é extremamente relevante. Vivemos em um mundo racista, classista, xenófobo e intolerante. O futebol e o esporte, como expressões da sociedade, não podem fugir dessas discussões. Vini é um exemplo de resiliência mental, sim. Mas não deveria precisar suportar esse fardo sozinho.

Falta apoio de outros atletas – negros e brancos. Falta posicionamento. E, acima de tudo, falta letramento racial. Não são todos os negros que têm acesso a ele, mas, na minha visão, todos os brancos deveriam buscar esse entendimento. Porque, a partir de uma visão eurocêntrica, colonial, norte global e imperialista criamos e perpetuamos teorias sem fundamento que infelizmente ainda fazem a cabeça de muitas pessoas – do criacionismo ao lombrosianismo, passando pelo nazismo e pelo neofascismo – que alimentaram o racismo estrutural no passado e continuam na atualidade.

E o racismo não é apenas um grito no estádio. Ele impacta a autoestima, a autoimagem, a confiança. Afeta o desenvolvimento psicológico e, consequentemente, a performance atlética de crianças, jovens e adultos. Ignorar isso é ser cúmplice.

Vini Jr. dança, encanta, luta. Mas também cansa, sofre e precisa de apoio. Que a sociedade, o esporte e as instituições estejam à altura da coragem que ele tem demonstrado. Como Seedorf nos lembrou, não há justificativa. Como Carragher nos ensinou, reconhecer o erro é o caminho.

Baila, Vini! Sempre!

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Abraços!!!
Até…

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