
Nos últimos anos, a busca por um corpo saudável e definido se transformou em um verdadeiro culto nas redes sociais e nas academias. As evidências científicas são claras: a prática regular de exercícios físicos traz benefícios inegáveis para a saúde do corpo e psicológica. O que pouca gente percebe é que, para uma parcela crescente da população, essa relação saudável com o esporte se desvirtua, dando lugar a um sofrimento psíquico real, que os especialistas já chamam de dependência de exercício, vigorexia ou dismorfia muscular.
Este artigo não fala de quem treina todos os dias, tem disciplina e leva uma vida equilibrada. Falamos aqui de um padrão patológico, que traz prejuízos à saúde física e mental. O problema é real, está se espalhando silenciosamente e, por ser socialmente aceito. Afinal, “quem treina demais é dedicado”, muitas vezes passa despercebido.
Mas a ciência já nos mostra que o cérebro de um dependente de exercício funciona de forma muito parecida com o de um dependente químico.
O que é a dependência de exercício (e por que ela é perigosa)
A dependência de exercício, também chamada de exercise addiction na literatura internacional, é definida como um padrão desadaptativo de exercício compulsivo e excessivo, no qual a pessoa perde o controle sobre a atividade, continua praticando mesmo diante de consequências negativas e sofre prejuízos psicológicos e físicos.
No Brasil, os números são alarmantes. Um estudo recente com praticantes de programas de condicionamento extremo (como o Crossfit) encontrou uma prevalência de dependência de exercício de 14,40% entre os avaliados. Outra pesquisa nacional, com dados coletados em centros de treinamento, apontou que 18,2% dos participantes estavam em risco de desenvolver o quadro, enquanto 20,8% já preenchiam critérios para dependência de exercício.
Em âmbito internacional, uma meta-análise publicada no Journal of Addiction Medicine revelou que, entre praticantes de exercícios em geral, a prevalência da dependência chega a 8,1%, e sobe para 5,5% entre estudantes universitários e 5,0% entre atletas amadores competitivos. Ou seja: estamos falando de milhões de pessoas em todo o mundo.
A dependência de exercício não está oficialmente reconhecida no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) nem na CID-11(Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde). O que torna o diagnóstico ainda mais desafiador. A ausência de um código formal dificulta o tratamento pelo sistema de saúde e mantém o problema nas sombras.

Vigorexia, dismorfia muscular e anorexia reversa: nomes de um mesmo sofrimento
Você já deve ter ouvido falar em vigorexia (ou bigorexia). Trata-se de um transtorno dismórfico corporal, também chamado de dismorfia muscular, uma variante do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) descrita no DSM-5. Quem sofre de vigorexia tem uma preocupação excessiva e irreal de que seu corpo é pequeno ou insuficientemente musculoso, mesmo quando já possui uma estrutura física avantajada.
O apelido “anorexia reversa” vem daí: enquanto a anorexia nervosa leva a pessoa a se ver gorda mesmo estando muito magra, a vigorexia faz o indivíduo se ver franzino quando na realidade é musculoso.
A grande armadilha é que o ambiente das academias e das redes sociais reforça essa obsessão. O paciente com vigorexia recebe elogios por seu “esforço” e “disciplina”, o que só aprofunda o ciclo doentio.
O cérebro viciado: por que a dependência de exercício é comparável às drogas
Por muito tempo, a dependência de exercício foi vista como um mero excesso de zelo pela saúde. Hoje, a neurociência mostra que os circuitos cerebrais envolvidos são surpreendentemente similares aos da dependência química.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Current Addiction Reports analisou todos os estudos de neuroimagem disponíveis sobre o tema. A conclusão foi inequívoca: pessoas com dependência de exercício apresentam diferenças estruturais e funcionais em regiões cerebrais associadas ao processamento de recompensa, controle executivo e regulação emocional, com destaque para o córtex orbitofrontal (OFC), o córtex cingulado anterior (ACC), o giro frontal inferior e a amígdala.
Em outras palavras: a compulsão pelo exercício altera o cérebro de forma semelhante à compulsão por cocaína ou álcool. Os mecanismos de tolerância (precisar de mais exercício para sentir o mesmo prazer), abstinência (ansiedade, irritabilidade e depressão quando não treina) e recaída rápida após um período de pausa são idênticos aos descritos para outras adicções.
Os sinais de alerta: como identificar a linha entre saúde e doença
A literatura científica tem proposto critérios para classificar a atividade como adictiva. Entre eles:
- A atividade é voluntária, não competitiva e ocupa aproximadamente uma hora ou mais por dia.
- Requer pouca habilidade ou esforço mental (é mecânica, repetitiva).
- Pode ser feita individualmente, sem depender de outras pessoas.
- É realizada sem autocrítica, o praticante não percebe o excesso.
- O praticante acredita que a atividade é valiosa e que a persistência trará melhora contínua.
Quando esses critérios se combinam a sintomas como:
- Padrão de exercício estereotipado e inflexível (mesmo treino, mesmo horário, todos os dias).
- Priorização extrema do exercício sobre relacionamentos, trabalho e lazer.
- Tolerância aumentada (aumento progressivo da carga ou do tempo de treino).
- Sintomas de abstinência ao interromper o exercício (ansiedade, irritabilidade, insônia, depressão).
- Consciência subjetiva da compulsão, a pessoa sabe que não consegue parar, mas se sente impotente. Portanto, estamos diante de um quadro que merece atenção profissional.
O papel das redes sociais e dos influenciadores sem formação
Um fator que tem agravado dramaticamente o problema é a cultura do fitness digital. Influenciadores sem qualquer formação em educação física, medicina, nutrição ou psicologia disseminam rotinas extremas, dietas restritivas e, em muitos casos, estimulam abertamente o uso de anabolizantes.
Um estudo experimental conduzido pela Flinders University, na Austrália, e publicado na revista Body Image expôs homens jovens (entre 17 e 30 anos) a vídeos de fitness no TikTok. O resultado foi direto: a exposição a corpos idealizados piorou a percepção que os participantes tinham do próprio condicionamento físico, aumentou a insatisfação com a alimentação e elevou significativamente a intenção de usar substâncias como creatina (e, por tabela, outros compostos). O mecanismo por trás disso é a comparação de aparência, o ato involuntário de se medir pelo corpo alheio, alimentado incansavelmente pelos algoritmos.
Pesquisas nacionais também apontam na mesma direção. Uma revisão integrativa publicada em 2025 mostrou que o uso frequente de Instagram e TikTok está associado à distorção da autoimagem, à comparação social e ao desenvolvimento de padrões alimentares rígidos e perfeccionistas entre jovens adultos brasileiros.
Casos reais: quando a busca pelo corpo ideal cobra um preço fatal
Infelizmente, não faltam exemplos trágicos de jovens que perderam a vida na tentativa de alcançar um padrão estético inalcançável.
O mais recente, em maio de 2026, o influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley, de apenas 22 anos, foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo. Ele passou a usar hormônios e anabolizantes após conseguir patrocínio. A causa da morte foi uma cardiomiopatia hipertrófica, uma doença do coração que pode ser associada diretamente ao uso de esteroides anabolizantes. O caso acendeu um forte alerta na sociedade, causando grande repercussão.
Em dezembro de 2025, o ex-campeão de fisiculturismo Kevin Notário Nunes de Oliveira, de 28 anos, morreu no Mato Grosso do Sul após desenvolver uma fasciíte necrosante, decorrente do uso indevido de substâncias injetáveis para ganho de massa muscular. Seu pai, vereador Marcelino Nunes, fez um alerta público: “A busca pelo corpo ideal levou a vida precoce do meu filho Kevin. Que este caso sirva de alerta para outros jovens e atletas”.
Casos como esses são trágicos, mas também uma oportunidade de debate. Não deveria existir um padrão corporal ideal para homens ou mulheres. Essa ideia é profundamente perigosa. Cada corpo tem sua beleza e saúde é muito mais do que um número na balança ou o tamanho do bíceps.

A relação com transtornos alimentares e a saúde mental dos jovens
A dependência de exercício raramente anda sozinha. Estudos mostram uma forte comorbidade com transtornos alimentares, como a ortorexia nervosa (a obsessão por alimentação saudável) e com quadros de ansiedade e depressão. Uma metanálise de 2025 revelou que a dependência de exercício ocorre mais de três vezes e meia como comorbidade a um transtorno alimentar.
No Brasil, pesquisas recentes identificaram comportamento de risco para ortorexia nervosa em 34% de estudantes da área da saúde e 35,8% de comportamentos de risco entre estudantes de nutrição. Os números impressionam e mostram como esses problemas têm acometido cada vez mais os jovens — especialmente as meninas, embora a vigorexia afete predominantemente o público masculino.
O uso de filtros em redes sociais agrava ainda mais o cenário. Filtros que afinam narizes, aumentam músculos ou clareiam a pele criam padrões de beleza que simplesmente não existem no mundo real. A “dismorfia do Snapchat” já é um termo discutido em congressos de psiquiatria: pacientes levam fotos filtradas para os médicos, desejando aquele rosto ou aquele corpo na vida real.
O que fazer diante desse quadro?
A boa notícia é que a dependência de exercício tem tratamento. Embora não haja um protocolo padronizado — o que reflete o ainda insuficiente reconhecimento da condição —, as abordagens mais eficazes combinam:
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC), para ajudar a pessoa a identificar e modificar os padrões de pensamento que alimentam a compulsão.
- Psicoterapia de grupo, para reduzir o isolamento e promover trocas saudáveis.
- Educação física supervisionada, com profissionais capacitados que ajudem a reestabelecer uma relação equilibrada com o movimento.
- Acompanhamento psiquiátrico, quando necessário, com uso de medicamentos para transtornos de ansiedade ou depressão associados.
A família e os amigos também têm um papel fundamental. Ao contrário do que muitos pensam, elogios excessivos ao shape ou à disciplina podem reforçar o padrão doentio. O diálogo franco, o acolhimento sem julgamento e o incentivo à busca de ajuda profissional são as melhores ferramentas.
Conclusão
A prática de exercícios físicos é e continuará sendo uma das melhores estratégias para promover saúde física e mental. O problema não é o esporte — é a relação doentia que algumas pessoas estabelecem com ele.
A dependência de exercício, a vigorexia e a dismorfia muscular são sofrimentos reais, validados por evidências neurocientíficas robustas. O fato de ainda não constarem formalmente nos manuais médicos não os torna menos graves. Muito pelo contrário: o silêncio diagnóstico perpetua o sofrimento.
Que este artigo sirva como um convite à reflexão. Saúde não é sinônimo de exaustão. Não é abdicar da vida social. Não é ignorar dores e lesões. E, acima de tudo, não é odiar o próprio corpo enquanto se busca um padrão inalcançável e, muitas vezes, artificial.
Cuidar do corpo é importante. Cuidar da saúde mental é indispensável.
Referências
- Ribeiro Neto, A. et al. (2024). Prevalência de Dependência de Exercício Físico em Praticantes de Programas de Condicionamento Extremo. Revista Psicologia e Saúde, 16.
- Trott, M. et al. (2020). Exercise addiction prevalence and correlates. Journal of Addiction Medicine, 14(6), e321–e329.
- Lima, G. C. et al. (2025). Exercise Addiction: A Systematic Review of Neuroimaging Evidence. Current Addiction Reports, 12, artigo 76.
- Manfrin, I. M. & Santos, A. C. C. P. (2025). Ortorexia e vigorexia: Influências das redes sociais sobre padrões e comportamento alimentar de jovens adultos. Research, Society and Development, 14(11), e184141150117.
- Fontes, N. T. V. et al. (2025). Prevalência de ortorexia nervosa em estudantes da saúde. Educação, Ciência e Saúde.
- Marin, J. (2026). TikTok fitness pode alterar autoimagem e comportamento de homens jovens. CNN Brasil.
- Falcão, R.S. (2007). Interfaces entre Dismorfia Muscular e Psicologia Esportiva. Revista Brasileira de Psicologia do Esporte v. 2 n. 1 (2008): Revista Brasileira de Psicologia do Esporte. DOI:
https://doi.org/10.31501/rbpe.v2i1.9271
http://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/2015/05/04/fisiculturista-que-sonhava-ser-hulk-quase-amputou-bracos-e-cogitou-suicidio.htm?cmpid=fb-geral
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/22/eps/1469215970_680873.html?id_externo_rsoc=FB_CM
O vício em esporte
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