A bola e o arco-íris

 A bola e o arco-íris  por JOSÉ GERALDO COUTO ( Folha de S. Paulo – 06/02/2010)


O que o rúgbi do filme “Invictus” tem a dizer ao mundo do futebol sobre a superação do ódio racial


“O FUTEBOL é um esporte cavalheiresco praticado por bárbaros e o rúgbi é um esporte bárbaro praticado por cavalheiros.” A frase, piada racista muito difundida na África do Sul na época do apartheid, é citada em “Invictus”, em cartaz nos cinemas.
Como nos mostra o belo filme de Clint Eastwood, o rúgbi, introduzido no país pelos britânicos, sempre foi associado na África do Sul à minoria branca, especialmente ao seu segmento mais racista, os africâneres, descendentes dos colonizadores holandeses.
O futebol, por sua vez, era e continua sendo o esporte preferido da maioria negra, ela própria uma constelação de tribos, etnias, culturas, religiões e línguas.
Pois bem. Ao chegar ao poder, após 27 anos preso, Nelson Mandela compreendeu que séculos de discriminação e ódio racial não seriam anulados por decreto da noite para o dia. Deu ao mundo uma lição de tolerância e de sagacidade política ao apoiar publicamente os Springboks (o nome do time nacional) na Copa do Mundo de rúgbi de 1995, sediada pela própria África do Sul.
Mandela, grande estadista, tinha consciência da importância dos símbolos e dos mitos para a formação de um país. Desagradou a seguidores e com certeza engoliu ressentimentos pessoais porque sabia que, dando a mão ao inimigo de ontem, desarmava-o e trazia-o para o seu lado na construção da “rainbow nation” (nação arco-íris).
A conquista da Copa de 1995 foi um grande momento de afirmação da unidade nacional sul-africana.
Claro que essa unidade é sempre imaginária, ilusória, precária, mas é igualmente imprescindível para manter uma convivência mais ou menos pacífica e evitar o caos.
Ao ver o filme, não pude deixar de lembrar outro momento histórico em que o esporte, no caso o futebol, desempenhou um papel essencial na superação das tensões étnicas e culturais. Refiro-me à Copa do Mundo da França, em 1998.
Ao longo daquele Mundial, a direita racista francesa, em especial seu líder Jean-Marie Le Pen, tentou desacreditar a seleção de Zidane, Thuram e cia., procurando convencer os franceses de que aquele ajuntamento de africanos, árabes, bascos e guadalupenses (ou seja, filhos de imigrantes ou oriundos das ex-colônias) não representava o país. O tiro, obviamente, saiu pela culatra. À medida que “Les Bleus” iam batendo os adversários, a França inteira foi se identificando cada vez mais com sua seleção.
A conquista da Copa, na final contra o Brasil, foi um momento de apoteose nacional, quase comparável, na euforia popular, à derrubada da Bastilha ou ao fim da ocupação alemã na Segunda Guerra.
Quem viu, no filme de Clint Eastwood, o rúgbi (esporte dos brancos) unir os sul-africanos certamente está curioso para ver também o efeito que a Copa do Mundo de futebol (esporte dos negros) terá para o país e, por extensão, para a África e para o mundo.
E em 2014 nós outros, que temos também a fama de “rainbow nation” (traduzida na expressão “cadinho de raças”), mostraremos se a tal democracia racial pode ser um fato ou se seguiremos varrendo os pretos e pobres para longe da festa.

Abraço.

Até !!!

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