Saúde Mental de Treinadores

Saúde Mental de Treinadores

Muito se fala da saúde mental dos atletas e da relação desse aspecto com a performance esportiva. Porém, a saúde mental dos treinadores nem sempre é levada em consideração. Treinadores (as) necessitam de desenvolvimento psicológico para lidar com questões relacionadas a sua saúde mental nas demandas de sua profissão.

Os treinadores (as) a maioria das vezes nas diversas modalidades esportivas são “multi-tarefas”, ou seja, exercem atividades além do próprio ofício. O ambiente esportivo exige isso deles, nem sempre (ou quase nunca) dão conta dessas exigências extra por completo. Não por incompetência ou negligência, mas simplesmente, por excesso de trabalho. Mas, acabam ‘abraçando a causa’, por amar o que fazem e por necessidade de continuar trabalhando. Alguns fazem dupla jornada, principalmente, aqueles que trabalham em categorias de base ou modalidade menos populares.

Nos projetos em que trabalhei, nesses quase 20 anos de atuação, praticamente TODOS os treinadores, tinham mais atribuições do que o cargo exigia e nem sempre tinham o manejo necessário para isso. Sempre havia boa vontade e bom senso na maioria das vezes. Porém, vi muitos colegas treinadores em níveis de estresse e estafa mental elevadíssimos, como consequência, muitas vezes, dessas atribuições extras. Alguns consegui auxiliar, acolher minimamente, escutá-los, outros não tive essa possibilidade, infelizmente.

Relato de treinadores que trabalham nas ligas Americanas e Britânicas.

“A vida de um treinador é incrivelmente exigente. Espera-se que os treinadores trabalhem longas horas realizando tarefas cognitivamente exigentes, como montar vídeos , encontrar com jogadores para explicar planos de jogo e preparar cronogramas de treinos. A cultura do coaching glorifica o chamado “ grindset ”, ou seja, a ideia de que o quanto você trabalha é mais importante do que a eficácia. Infelizmente, os treinadores costumam ser recompensados ​​por essa abordagem. Isso cria uma sensação de controle em meio ao caos e, como um treinador me disse, “ninguém nunca foi demitido por ficar muito tempo no escritório”.

“Devido à privação de sono acumulada, adormeço no sofá ou na cama em cinco minutos, apenas para acordar e fazer a mesma coisa no dia seguinte.”

“Ao final desses 126 dias, meu funcionamento havia diminuído acentuadamente. Eu estava esgotado, retraído e perdido. Perdi festas de aniversário, casamentos e férias em família. Perdi muita vida naquele ano.”

‘Devo mostrar raiva, devo mostrar frustração, não devo mostrar vulnerabilidade’.


Segundo Tess M. Kilwein, “à medida que os treinadores sobem na hierarquia, eles são desafiados com situações complexas dentro e fora do campo. Eles são encarregados de liderar grupos cada vez maiores de atletas e gerenciar uma equipe ( um grupo de rugby e futebol, por exemplo, podem ter 30 atletas). Se eles se tornarem treinadores principais, a função evolui para incluir gerenciamento, liderança, design de cultura, gerenciamento de mídia, resolução de conflitos e gerenciamento de expectativas e relacionamentos com proprietários de equipes ou diretores esportivos universitários.”

Ainda de acordo com, Tess M. Kilwein, “o estilo de vida do treinador – gerenciar pressão constante, sono limitado, relacionamentos tensos, suporte mínimo – está pronto para criar problemas de saúde mental. Embora essas preocupações possam não atingir um limiar clínico, muitos treinadores se deparam com problemas da vida diária que afetam sua capacidade de desempenho.”

Os treinadores precisam do mesmo apoio que os atletas. Para realmente promover a saúde e o alto desempenho de nossos técnicos, precisamos reimaginar a cultura do treinamento e a maneira como pensamos sobre as pessoas atingirem seu pleno potencial. Vide recente entrevista do treinador, Jurgen Klopp, do Liverpool, onde comentou que irá sair da equipe ao final da temporada por não ter a mesma energia para ser o líder desse time como anteriormente. Ele não alegou nenhum problema com relação a sua saúde emocional, porém, as rotinas que envolvem o futebol de altíssimo rendimento, como é o caso em questão, podem afetar a qualidade de vida de quem está inserido nesse ambiente.

Alguns treinadores, por sua vez, não tem consciência de como seu estresse afeta a comunicação e a avaliação de desempenho necessárias para executar bem o seu papel numa equipe esportiva. Em longo prazo, isso é muito prejudicial. Reduzir o estresse do treinador tem como o objetivo melhorar a sua saúde e consequentemente o desempenho dos atletas.

Saúde Mental de Treinadores

Como o psicólogo do esporte pode auxiliar?

Os psicólogos do esporte podem desempenhar um papel único em ajudar esses treinadores principais a gerenciar as demandas que enfrentam como líderes. Por exemplo, os psicólogos esportivos podem ajudar os treinadores a lidar com o estresse e gerenciar funções necessárias, como sono e programação. Eles também podem fornecer uma caixa de ressonância para treinadores que estão sob pressão para realizar e entregar grandes resultados. Em um ambiente de alta pressão e alto risco, fornecer serviços de saúde mental e desempenho mental para treinadores oferece às organizações uma vantagem competitiva única a ser explorada.

Em janeiro de 2023, uma pesquisa com 6.000 treinadores universitários nos Estados Unidos encontrou taxas relativamente altas de dificuldades de saúde mental. Um terço relatou exaustão mental, sensação de estar sobrecarregado e interrupção do sono quase constante.

No ano passado, o Gaelic Players Association da Irlanda, relatou um aumento de 60% no número de jogadores que acessam serviços de aconselhamento. Os problemas apresentados são potencialmente complexos e sérios. Oferecer solidariedade é uma coisa: aprender e treinar para apoiar jogadores com tais problemas é outra. Isso exige cuidados especializados.

Algumas dicas

Segundo artigo recente na Psychology of Sport and Exercise, essas dicas podem auxiliar na saúde mental de treinadores (as):

1 – Desenvolva um plano de carga de trabalho para limitar as demandas de tempo fora do campo de treinamento;

2 – Identificar e recrutar atletas “autossuficientes” ( que não dependam exclusivamente da relação de vocês para performar);

3 – Estabeleça uma cultura que incorpore níveis apropriados de comunicação;

4 – Tome cuidado ao montar uma equipe estelar de bastidores (cerque-se de ótimos profissionais e delegue tarefas);

5 – Descanse quando os jogadores descansam;

6 – Incluir tempo para descanso no planejamento do projeto;

7 – Pratique o que você prega quando se trata de autocuidado.


Referências:



https://globalsportmatters.com/health/2022/12/07/sports-organizations-mental-health-support-coaches/

https://www.irishexaminer.com/sport/othersport/arid-41115169.html


https://www.psychologytoday.com/us/blog/in-the-trenches/202307/coaches-mental-health-matters


https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1469029223001036?utm_source=substack&utm_medium=email

https://trivela.com.br/inglaterra/klopp-saida-liverpool-esgotamento-metal/

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Abraços …
Até !

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